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Cinco cartas de Amor e uma de despedida II

por Diana V., Quinta-feira, 28.08.14

   As madrugadas morriam na ponta dos teus dedos enfraquecidos sobre o meu ventre, adormecíamos vencidos pelo cansaço do que chega devagar e se vai depressa demais, chegávamos com a urgência de um cigarro num dia de vento, talvez a idade um dia abrandasse a vida, para que o relógio acompanhasse a eternidade dos nossos momentos. Desperta-me meu amor antes que o dia me acorde numa vaga de realidade, e os sonhos sejam cinzas que à luz do dia voam pelas janelas que nos esquecemos de fechar. Era à noite que te amava mais, livre da agitação quotidiana, do excesso de claridade e dos passos inquietantes dos que correm no sentido contrário à vida. De noite não havia varinas, nem pássaros nos beirais, havia silêncio em vez de ardinas a apregoarem banalidades. Quem lê jornais não sabe ler, não como nós, nós que compreendemos o inquietante espaço entre palavras emudecidas por um ósculo, nós que sabemos que todos os plurais nasceram singulares e que a maior ambição de um plural é ser singular. À noite havia os gatos à procura de Deus nos telhados e as meninas a venderem ilusões aos descrentes num gesto de caridade que a vida não tinha tido para elas. Quão admirável é a solidão de quem faz do corpo altar de sacrifício para a alma?

 

  O céu era mais bonito quando me davas a mão e as luzes da cidade se retiravam para deixar brilhar as estrelas, adormecia no teu peito embalada pelo ritmo cardíaco de quem fez do corpo palco de dança, era nesse momento, antes de adormecer, que acreditava que Deus existia, e lhe prometia num gesto de fé, amar-te em todos os tempos verbais. As ondas abraçavam os íngremes rochedos e com essa cadência da maré despertávamos, acariciados pelos raios da manhã que entravam pelas vidraças da varanda, abraçavas-me e levantavas-te com a promessa de um café e de um beijo. Em cima da velha cómoda azul havia um vaso de alfazema perfumada, que se misturava com a maresia e me embriagava de odores matinais. Via-te chegar com uma chávena de porcelana branca na mão e o sorriso de quem não se preocupa com os dias que hão-de vir. Era de dia que das brasas nasciam cinzas que voavam pela janela como pássaros livres, era o bater de asas dos sonhos que tecemos acordados entre as margens dos lençóis. A agitação chegava e eu distraía-me com ela, certa de que sempre que olhasse para a porta encontraria uma chávena e um sorriso com cheiro a alfazema e maresia. 

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por Diana V. às 05:50

Ribatejo

por Diana V., Terça-feira, 20.05.14

Disseste…

Que as pedras da Praça 5 de Outubro eram corpo celeste

Que brilhava mais quando respirávamos sorrisos

E caminhávamos de almas levantadas pelos ventos da noite

Arrojados pelas ruas de sentidos que nos espreitavam em cada esquina

Ali … onde havia dias feitos de letras tecidos por uma Penélope expectante

Desfeitos nos murmúrios da noite na esperança de um regresso

(Um novo livro, talvez…?)

Chegava equilibrada na linha de ferro que nos unia nas distâncias

Vinha com a elegância da capital espalhada pelo corpo

Ali … largava a um canto reminiscências de uma outra vida

Despida pelos sons que me percorriam a medula

(Já não era outra, era eu…)

Embriagada pelos risos fluidos numa pista de dança

Onde partilhávamos garrafas de alegria e palavras ao ouvido

Tu disseste…

Que os regressos se teciam na memória de quem não esquece

Que outras noites desceriam continuamente o Almonda

E girariam como o destino na tarambola à margem da pedra

Onde pousámos os copos vazios

horas antes erguidos

Às memórias dos sonhos por vir

Amanhecíamos nas ausências prolongadas que preenchemos 

Com alguns minutos de olhares em silêncio

E fotografias guardadas no disco rígido das máquinas

Interrompíamos a ordem com gargalhadas

Que fariam desta ... todas as outras madrugadas!

 

DV

 

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por Diana V. às 03:02

A Testemunha II

por Diana V., Terça-feira, 30.07.13

Detive-me à entrada da tua coragem, o medo magoava-me os braços, e eu nunca tive predisposição para me esforçar desnecessariamente. Há quem lhe chame preguiça, eu prefiro pensar que a minha determinação é lenta, não porém menos efectiva. Reciclei-o, não por questões ambientais, apenas por curiosidade, nunca se sabe no que o medo se pode transformar. Recebeste-me de boca aberta, e eu quis entrar, já sem peso nos braços, e sem saber se queria ficar, conheci uma cidade inteira, na tua boca ainda por fechar. As ruas eram largas, tinham canteiros de flores com espinhos a picarem sombras e silêncios construídos civilizadamente.

                As pessoas foram todas para casa, guardar os gritos que não gastaram naquele dia. Lembro-me de me teres dito que era uma manifestação pacífica, e eu pensei que nenhuma manifestação deveria ser assim, sem rastros de sangue, fogos levantados ou danos maiores. As pessoas andam para aí a estragar a desordem natural da vida, numa cadência ilusória que as desvia desta coisa de existir. Quanto a mim tinha rompido a harmonia que me acompanhou até à tua chegada, e ali estava eu, testemunha e interveniente de um caos primordial, com um mapa sem destinos e sem saber para onde ir, ou se queria ir.

                     Os teus lábios tinham caminhos quentes, a tua barba picava-me a pele como as flores às sombras da cidade, havia ruas de sangue no meu corpo, abruptas, manifestavam-se de uma forma tão violenta, que eu achei que me ia desfazer em mil outros corpos pela rua, mas não, em vez disso levantaram-se fogos com que acendemos os cigarros. A meu pedido, suspendíamos o beijo para fumar, civilizadamente, como as pessoas que interrompem a desordem natural das coisas, porque tu acreditavas que todas as manifestações são pacíficas, e eu que já li muito, sei que são sempre fatais, mas isto não vem nos livros e escreve-se sempre de outra forma. Um cigarro é sempre uma passadeira, entre um lado da rua e o outro. Atravesso? Ir nem sempre significa não ficar. Do outro lado não há canteiros a picarem-me o rosto, nem a tua boca aberta à minha, do outro lado existem outras coisas que eu ainda não vi, e isso é tudo. 

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por Diana V. às 08:30

A Testemunha

por Diana V., Sexta-feira, 24.05.13

     

 

 

     A ordem só pode ser restaurada depois do caos. Quando cheguei àquela cidade, que sinto como minha, a polícia tentava instaurar a ordem entre o caos causado pelos manifestantes. Quanto a mim, seguia serena no autocarro, a tempestade já tinha passado, e ali estava eu, devidamente ordenada com esta coisa de existir. Lembro-me que até o céu parecia mais azul, e respirar parecia-se efectivamente com respirar, já não sufocava, era mais fácil. Estava tudo no seu devido lugar, a acontecer como tem de acontecer.

 

     Ia testemunhando a desordem, num fora de mim que raramente me permito, lembro-me de pensar que mais cedo ou mais tarde as pessoas lá de fora iriam encontrar o ponto onde se estabeleceu a ruptura, iriam repará-lo, e a harmonia seria reposta, mas já nada seria como era antes, nunca é. A harmonia é sempre diferente, e a maioria das vezes breve. Exige uma manutenção cuidada, que resulta da soma de experiências e das ferramentas que fomos encontrando. Nada voltaria a ser como era. E tudo estava a acontecer como devia acontecer. A crença é incauta.

 

     Eu ordenada nas coisas de dentro, eu testemunha das coisas de fora. Meditativa e relaxada, entreguei-me à previdência. Aceitar que há um destino foi coisa que me levou tempo, mantenho-me no entanto uma acérrima defensora de que a escolha da reacção ao imprevisto é sempre nossa. Devo dizer que Cronos foi implacável com aquela harmonia que era minha. Brevidade necessária? E tudo continuava a acontecer como tinha de acontecer. No dia seguinte pude escolher a cor do céu. A harmonia tinha sido alterada. A cidade amanheceu ordenada, testemunha do caos que me provocara, nada voltaria a ser como era.

 

Diana V.

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por Diana V. às 09:00

"Coisas minhas"

por Diana V., Sexta-feira, 26.10.12

Somos meu amor, o nosso silêncio! Não, não é a carência de palavras, é o respirar contínuo dos nossos lábios quando as nossas línguas se abraçam, sou eu de olhos fechados a desenhar os contornos do teu rosto com a ponta dos dedos e és tu a acalentar-me o corpo com o olhar. O nosso silêncio é, sempre foi, mais. Mais do que sabemos dizer. E é deste silêncio, tão nosso, que nos fizemos AMOR.

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por Diana V. às 09:30


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