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A Testemunha II

por Diana V., Terça-feira, 30.07.13

Detive-me à entrada da tua coragem, o medo magoava-me os braços, e eu nunca tive predisposição para me esforçar desnecessariamente. Há quem lhe chame preguiça, eu prefiro pensar que a minha determinação é lenta, não porém menos efectiva. Reciclei-o, não por questões ambientais, apenas por curiosidade, nunca se sabe no que o medo se pode transformar. Recebeste-me de boca aberta, e eu quis entrar, já sem peso nos braços, e sem saber se queria ficar, conheci uma cidade inteira, na tua boca ainda por fechar. As ruas eram largas, tinham canteiros de flores com espinhos a picarem sombras e silêncios construídos civilizadamente.

                As pessoas foram todas para casa, guardar os gritos que não gastaram naquele dia. Lembro-me de me teres dito que era uma manifestação pacífica, e eu pensei que nenhuma manifestação deveria ser assim, sem rastros de sangue, fogos levantados ou danos maiores. As pessoas andam para aí a estragar a desordem natural da vida, numa cadência ilusória que as desvia desta coisa de existir. Quanto a mim tinha rompido a harmonia que me acompanhou até à tua chegada, e ali estava eu, testemunha e interveniente de um caos primordial, com um mapa sem destinos e sem saber para onde ir, ou se queria ir.

                     Os teus lábios tinham caminhos quentes, a tua barba picava-me a pele como as flores às sombras da cidade, havia ruas de sangue no meu corpo, abruptas, manifestavam-se de uma forma tão violenta, que eu achei que me ia desfazer em mil outros corpos pela rua, mas não, em vez disso levantaram-se fogos com que acendemos os cigarros. A meu pedido, suspendíamos o beijo para fumar, civilizadamente, como as pessoas que interrompem a desordem natural das coisas, porque tu acreditavas que todas as manifestações são pacíficas, e eu que já li muito, sei que são sempre fatais, mas isto não vem nos livros e escreve-se sempre de outra forma. Um cigarro é sempre uma passadeira, entre um lado da rua e o outro. Atravesso? Ir nem sempre significa não ficar. Do outro lado não há canteiros a picarem-me o rosto, nem a tua boca aberta à minha, do outro lado existem outras coisas que eu ainda não vi, e isso é tudo. 

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por Diana V. às 08:30


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