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Do outro lado do espelho...

por Diana V., Sexta-feira, 02.05.14

 

 

A vida repete-se, vai como de costume, com a habitualidade dos bons dias com cheiro a pão quente. Dobro esquinas idênticas, simetrias habituais, calcorreio as calçadas todas elas sempre iguais. Afirmo solenemente, na prosa nunca há rima. Ri … mas logo de seguida fiquei nostálgica, cheia de saudades portuguesas das minhas constantes incertezas. Na prosa nunca há tristezas, nem liras, nem corvos nem violinos. Vai tudo em linha recta, sem linha torcida, é ponto final, cruz, linear, sem reticências. É um conjunto de coerências, uma espécie de bordar, a agulha entra por um lado, sai por outro, ponto arrematado, pela frente bonitinho, atrás tudo enleado, como a vida. A prosa é a vida, a poesia é a linha cortada. Interrompida. Tenta lá dizer bom dia com poesia, é tudo diferente, sem cheiro a pão quente, ou a coisas habituais. Cheira a cinzas de amores passados, crimes premeditados, pássaros fúnebres esborrachados no vidro do carro em andamento. É tudo sofrimento, mesmo quando não é, é sempre um fingimento superior, toda a acção se crava como lâminas aguçadas no peito do sujeito. Eu Lírica. Morte, renascimento, latejar poético das artérias mirradas, bate leve, levemente, formigueiro, pé dormente, sempre incomodativo como a dor de um dente. Li que a prosa não deve rimar, e só para contrariar… nasci - Do contra, contramão, contratempo, contraversão, contraste, contra senso.

Alice buraco dentro, agora pequena, agora grande, propensa a quedas, inconstantemente flexível. Está tudo do outro lado do espelho, fecho os olhos para ver. Se for uma porta é prosa, se for uma janela é suicídio, poesia em movimento, das portas não caem corpos, ninguém se atira de uma porta, ninguém se comove com uma porta, não têm terror, nem tragédias. Ou têm? Pintaram as portas em tons de suicídio, dentro delas germinam janelas, vertigens poéticas com cantos de sereias que entoam abismos a deuses hiperbólicos que devoram eufemismos. A queda é sempre inevitável às fatais possibilidades. Experimenta, vai à janela e imagina o teu corpo rebentado no chão, o rasto de sangue a aquecer as pedras do caminho que não fizeste, os corvos a arrancarem-te os olhos que desviaste, o teu corpo surdo ao grito dos desconhecidos que ali estão. Sentes terror? Sentes compaixão? Agora olha o céu. Sentes-te vivo? Sentes gratidão? Isso é poesia. Prosa é a vida, a poesia não!

 

O sujeito lírico caiu numa encruzilhada da madrugada, foi visto repetitivamente a saltar de janelas sedutoras, só para provocar a própria comoção. Levantava-se figura de estilo com Ironia dizia: - A prosa é vida, a poesia não. Se uns procuram a meia laranja, eu procuro o meu meio limão.  

 

Imagem: Saturno devorando a un hijo - Francisco de Goya

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por Diana V. às 02:12


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