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O rapaz da boina aos quadrados

por Diana V., Quinta-feira, 01.08.13

Aquele final de tarde cheirava a Lisboa, ouviam-se passos e as folhas secas bramiam nas árvores. Todos os finais de tarde têm o encanto peculiar de uma despedida e todos os finais de tarde têm a alegria titubeante de uma chegada. Aquele sítio que julgou conhecer de outros tempos, apresentou-se desigual. Um gesto sem palavras e o rosto dela espelhou a tonalidade do rubro céu. Ele contemplou-a, de baixo para cima, como quem se ajoelha e pede perdão por ter testemunhado o divino, por respeito, levantou timidamente a boina aos quadrados, xadrez cinema antigo, faltou-lhe a rainha, até hoje, quando o silêncio foi subitamente engolido por dois olhares eloquentes. Tudo ali era diferente e ali nada ficou por dizer.

 

DV

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por Diana V. às 08:30

A Testemunha II

por Diana V., Terça-feira, 30.07.13

Detive-me à entrada da tua coragem, o medo magoava-me os braços, e eu nunca tive predisposição para me esforçar desnecessariamente. Há quem lhe chame preguiça, eu prefiro pensar que a minha determinação é lenta, não porém menos efectiva. Reciclei-o, não por questões ambientais, apenas por curiosidade, nunca se sabe no que o medo se pode transformar. Recebeste-me de boca aberta, e eu quis entrar, já sem peso nos braços, e sem saber se queria ficar, conheci uma cidade inteira, na tua boca ainda por fechar. As ruas eram largas, tinham canteiros de flores com espinhos a picarem sombras e silêncios construídos civilizadamente.

                As pessoas foram todas para casa, guardar os gritos que não gastaram naquele dia. Lembro-me de me teres dito que era uma manifestação pacífica, e eu pensei que nenhuma manifestação deveria ser assim, sem rastros de sangue, fogos levantados ou danos maiores. As pessoas andam para aí a estragar a desordem natural da vida, numa cadência ilusória que as desvia desta coisa de existir. Quanto a mim tinha rompido a harmonia que me acompanhou até à tua chegada, e ali estava eu, testemunha e interveniente de um caos primordial, com um mapa sem destinos e sem saber para onde ir, ou se queria ir.

                     Os teus lábios tinham caminhos quentes, a tua barba picava-me a pele como as flores às sombras da cidade, havia ruas de sangue no meu corpo, abruptas, manifestavam-se de uma forma tão violenta, que eu achei que me ia desfazer em mil outros corpos pela rua, mas não, em vez disso levantaram-se fogos com que acendemos os cigarros. A meu pedido, suspendíamos o beijo para fumar, civilizadamente, como as pessoas que interrompem a desordem natural das coisas, porque tu acreditavas que todas as manifestações são pacíficas, e eu que já li muito, sei que são sempre fatais, mas isto não vem nos livros e escreve-se sempre de outra forma. Um cigarro é sempre uma passadeira, entre um lado da rua e o outro. Atravesso? Ir nem sempre significa não ficar. Do outro lado não há canteiros a picarem-me o rosto, nem a tua boca aberta à minha, do outro lado existem outras coisas que eu ainda não vi, e isso é tudo. 

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por Diana V. às 08:30

A Testemunha

por Diana V., Sexta-feira, 24.05.13

     

 

 

     A ordem só pode ser restaurada depois do caos. Quando cheguei àquela cidade, que sinto como minha, a polícia tentava instaurar a ordem entre o caos causado pelos manifestantes. Quanto a mim, seguia serena no autocarro, a tempestade já tinha passado, e ali estava eu, devidamente ordenada com esta coisa de existir. Lembro-me que até o céu parecia mais azul, e respirar parecia-se efectivamente com respirar, já não sufocava, era mais fácil. Estava tudo no seu devido lugar, a acontecer como tem de acontecer.

 

     Ia testemunhando a desordem, num fora de mim que raramente me permito, lembro-me de pensar que mais cedo ou mais tarde as pessoas lá de fora iriam encontrar o ponto onde se estabeleceu a ruptura, iriam repará-lo, e a harmonia seria reposta, mas já nada seria como era antes, nunca é. A harmonia é sempre diferente, e a maioria das vezes breve. Exige uma manutenção cuidada, que resulta da soma de experiências e das ferramentas que fomos encontrando. Nada voltaria a ser como era. E tudo estava a acontecer como devia acontecer. A crença é incauta.

 

     Eu ordenada nas coisas de dentro, eu testemunha das coisas de fora. Meditativa e relaxada, entreguei-me à previdência. Aceitar que há um destino foi coisa que me levou tempo, mantenho-me no entanto uma acérrima defensora de que a escolha da reacção ao imprevisto é sempre nossa. Devo dizer que Cronos foi implacável com aquela harmonia que era minha. Brevidade necessária? E tudo continuava a acontecer como tinha de acontecer. No dia seguinte pude escolher a cor do céu. A harmonia tinha sido alterada. A cidade amanheceu ordenada, testemunha do caos que me provocara, nada voltaria a ser como era.

 

Diana V.

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por Diana V. às 09:00

Would you Kill to Save your Life?

por Diana V., Sexta-feira, 24.05.13





Thirty Seconds To Mars - Hurricane

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por Diana V. às 00:01

Prefiro as Noites

por Diana V., Quinta-feira, 23.05.13

http://bit.ly/bYqEJA

Imagem:  http://bit.ly/bYqEJA

 

         Que sabes tu de viver se nunca morreste? Para que queres tu ver a luz, se não cresceste à sombra? Como podes tu olhar o sol, se não te dói? Tu que nunca embalaste a escuridão em noites brancas, diz-me: - Que sabem os teus olhos sobre vida, se nunca te cegaram as paixões da alma? Voltarias a ver? Sem a ilusão hiperbolizada, sem a metáfora do fim da estrada, conseguirias viver? Ó fogo de quimeras que abrandas à luz dos dias, que crês piedosamente que os eufemismos são a verdade que procuras, que te alimentas de singularidades, e que na tua imensa falta de apetite, nunca engoliste um plural. Que sabes tu de pluralidades? Ou de polaridades? Sabes quantas trevas são necessárias para nascer um homem do ventre de uma mulher?

 

Diana V.

 

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por Diana V. às 13:13

Vida

por Diana V., Quarta-feira, 17.04.13

Calcorreava a calçada sem pressas, vestia corvos e poetas no olhar, com os pés cheios de sombras dobrou a vida à esquina como quem dobra o medo, nas trevas, das manhãs mortas. Sôfrega, respirava com uma urgência desastrosa que se desencontrava dos passos hesitantes. Fechou os olhos e entregou-se a ouvir as folhas das árvores que caíam como andorinhas dos ninhos lamacentos. Deitou-se no Outono, acordou na Primavera. Fénix reinventada sacudiu as penas dos olhos, despiu-se e fez-se à estrada. 

 

Diana V.

  

 

 

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por Diana V. às 14:40

¿Qué hora es?

por Diana V., Sexta-feira, 15.03.13
Imagem retirada da internet
(Imagem retirada da internet)


¿Qué hora es?
Caminé hasta  la iglesia y regresé sin Dios, el divino desencuentra siempre a quien camina sin tener donde llegar. ¿He llegado tarde? ¿He llegado temprano? Miro mi muñeca sin marcas y sin respuestas y me pregunto: - ¿Cuánto tiempo he estado aquí? La vida se mueve circular y yo con ella, rápida, alrededor de algo que empieza y termina en el mismo lugar. ¿Qué hora es?
Las agujas contrarrestan la agitación de los días, me quedo esperando tranquila todo lo que ha de venir, el reloj se detuvo en la puerta de otra vida. No hay más tiempo para contar cuántas horas hay entre un  día y otro, y después otro y  otro más. ¿Hay Dios?
La puerta. Cualquier cosa por venir. Las agujas esperando.
Dios estaba entre tu mano y mi reloj, la vida llegó girando y el sol nació por primera vez en mi ventana, vertió  su amarillo sobre el vino. Naranja vida que cojo con mis dedos y dibujo un círculo perfecto en la cama donde nos acostamos,  el divino se encuentra siempre en el camino de los que saben adónde ir.

Que horas são?
Fui à igreja e voltei sem Deus, o divino desencontra-se sempre de quem anda sem ter para onde voltar. Será que cheguei tarde? Será que cheguei cedo? Olho o pulso sem marcas e sem respostas, pergunto-me: - Há quanto tempo estou aqui? A vida move-se circular, e eu com ela, veloz, à volta de qualquer coisa que começa e termina sempre no mesmo sítio. Que horas são?
Os ponteiros contrariam a agitação dos dias, esperam pacientemente qualquer coisa que está para chegar, o relógio deteve-se na porta de outra vida. Não há tempo para contar quantas horas vão de um dia ao outro, e depois a outro e a outro. Será que Deus existe?
A porta. Qualquer coisa por chegar. Os ponteiros à espera.
Deus estava entre a tua mão e o meu relógio, a vida voltou a girar, e o sol que nasceu pela primeira vez na minha janela, derramou o amarelo por cima do vinho entornado. Laranja vida. Apanho-o com os dedos e desenho um círculo perfeito na cama onde nos vamos deitar, o divino encontra-se sempre nos passos destemidos de quem sabe para onde voltar.
Diana V.
2013

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por Diana V. às 16:41

O Medo

por Diana V., Quarta-feira, 27.02.13

Sepultei na alma a semente

Germinaram rosas nos lábios

E o medo, espinho pungente

Dilacerou a garganta entupida

Da palavra a língua dormente

Como pétala de rosa caída

Mordia-lhe o espinho como um dente

A meio da boca florida

Trinca, corta, retalha

Os lábios luxuriantes

Cala os poetas com a mortalha

Onde te definharam as amantes

Os teus lábios ruas sem cores

Jardins de sombras fugidias

Invernais sepulcros sem flores

Ornamentados com jarras vazias

Boca na terra deserta esventrada

Por mãos roxas e dolentes

Dessa tua angústia estripada

Só nascem espinhos e dentes!

 

Diana V.

2012

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por Diana V. às 15:55

Midnight in Paris

por Diana V., Sexta-feira, 25.01.13

Midnight in Paris

Woody Allen

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por Diana V. às 16:22

Musa

por Diana V., Quarta-feira, 23.01.13

 

 

Fecho-te na promessa de um beijo, ergues a bandeira branca. Hoje podemos enganar as horas dispersas. Talvez amanhã não seja outro dia e o sonho continue cativo na boca dos amantes. Acho que já estivemos aqui antes, o colchão tem delineado o cheiro dos nossos corpos, e julgo ter ouvido a cama a gritar os nossos nomes. Rasga os lençóis, venda-me os olhos, os meus pés que tão bem conhecem este chão chegarão até ti, encontrarei o teu corpo na ponta dos meus dedos, e com eles, desenhar-te-ei de olhos fechados, tela vívida, matéria indivisível de mim.

 

 

 

Diana Vinagre

 

Projecto "Na ponta dos dedos" de Jaime Lopez

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por Diana V. às 22:55


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