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Cinco cartas de Amor e uma de despedida I

por Diana V., Sexta-feira, 02.05.14

     Deixa-me partilhar do teu silêncio e aconchegar os teus gritos no calor dos meus lábios. Deixa-me amanhecer-te, entardecer-te e anoitecer-te numa página em branco, onde dançam os deuses e demónios dos livros que lemos naquela tarde de verão que permanece intacta no cheiro dos nossos corpos ausentes. Deixa-me amor ser o teu campo de batalha onde procuras a paz da infância sensorial e vívida, onde colhias papoilas rubras e malmequeres em cenários oníricos, e com elas desenhavas sonhos que havias de contar-me mais tarde. Era sempre tarde para o encontro do desejo que as ausências engrandeciam, e tu esperavas-me entre cigarros breves e minutos demasiado demorados, a olhar o curso contínuo do rio onde haveríamos de beber madrugadas e auroras por vir. Falavas-me das palavras que te tinham escolhido, para te dizeres à minha chegada, e de como a linguagem era imperfeita e ineficaz para te definires enquanto me esperavas, e eu pedia-te que me lesses uma passagem do livro que trouxeste para enganar os minutos onde eu não estava. E tu lias, e eu ouvia, falavas sempre de liberdade e dos homens feitos de céu que a procuravam, eu ouvia e voava entre as margens onde tínhamos ancorado os medos de uma história por contar.

     Todas as palavras eram equívocos que deitávamos à água, náufragas dos sentidos que lhes dávamos, desciam o rio ajudadas pelo vento como os pequenos barcos de papel da minha infância que os meus dedos pequeninos dobraram antes de te conhecerem, antes de existirem para te tocar, antes de existirem para os teus lábios os tocarem. Beijavas-me as mãos, e os teus lábios eram terras quentes de perfumadas flores exóticas que eu guardava entre as páginas do meu diário. Enganávamos Saturno e a ordem natural das coisas, num silêncio desordenado que soprava continuamente e nos emaranhava os cabelos, e éramos solene fogo ardente onde nos consumíamos até sermos a brasa com que acendíamos cigarros de despedidas fumadas entre beijos e movimentos das nossas mãos eloquentes que nos diziam tudo o que precisávamos saber sobre o poder da oratória silenciosa de quem numa tarde de verão se fez poesia de asas longas, que se abriam ao horizonte dos olhares que trocávamos. A fortuna girava determinada em mudar-nos a corrente, nós girávamos com ela sem resistir e ignorávamos o destino que nos pudesse trazer, por existirmos além matéria, além-mundo, onde nem deuses nem demónios nos podem alcançar. Riamos das preocupações da vida, como num jogo infantil, espontâneo momento sem finalidade, como a viagem inacabada de paisagens que desenhaste nas minhas costas viradas ao calor do teu corpo, onde me atracavas e desancoravas à liberdade das marés revolucionárias onde eu me fiz manifestação e tempestade. 

 

 

P.S. Para a mãe que eu sei ter muitas saudades das coisas que a Maria das Quimeras escrevia. Anda uma mãe a alimentar uma filha a poesias e utopias, para depois ela só escrever disparates que ninguém entende, e que germinaram de leituras tão arrebatadoras que levaram todos os meus demónios a um suicídio colectivo. 

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por Diana V. às 15:28

Do outro lado do espelho...

por Diana V., Sexta-feira, 02.05.14

 

 

A vida repete-se, vai como de costume, com a habitualidade dos bons dias com cheiro a pão quente. Dobro esquinas idênticas, simetrias habituais, calcorreio as calçadas todas elas sempre iguais. Afirmo solenemente, na prosa nunca há rima. Ri … mas logo de seguida fiquei nostálgica, cheia de saudades portuguesas das minhas constantes incertezas. Na prosa nunca há tristezas, nem liras, nem corvos nem violinos. Vai tudo em linha recta, sem linha torcida, é ponto final, cruz, linear, sem reticências. É um conjunto de coerências, uma espécie de bordar, a agulha entra por um lado, sai por outro, ponto arrematado, pela frente bonitinho, atrás tudo enleado, como a vida. A prosa é a vida, a poesia é a linha cortada. Interrompida. Tenta lá dizer bom dia com poesia, é tudo diferente, sem cheiro a pão quente, ou a coisas habituais. Cheira a cinzas de amores passados, crimes premeditados, pássaros fúnebres esborrachados no vidro do carro em andamento. É tudo sofrimento, mesmo quando não é, é sempre um fingimento superior, toda a acção se crava como lâminas aguçadas no peito do sujeito. Eu Lírica. Morte, renascimento, latejar poético das artérias mirradas, bate leve, levemente, formigueiro, pé dormente, sempre incomodativo como a dor de um dente. Li que a prosa não deve rimar, e só para contrariar… nasci - Do contra, contramão, contratempo, contraversão, contraste, contra senso.

Alice buraco dentro, agora pequena, agora grande, propensa a quedas, inconstantemente flexível. Está tudo do outro lado do espelho, fecho os olhos para ver. Se for uma porta é prosa, se for uma janela é suicídio, poesia em movimento, das portas não caem corpos, ninguém se atira de uma porta, ninguém se comove com uma porta, não têm terror, nem tragédias. Ou têm? Pintaram as portas em tons de suicídio, dentro delas germinam janelas, vertigens poéticas com cantos de sereias que entoam abismos a deuses hiperbólicos que devoram eufemismos. A queda é sempre inevitável às fatais possibilidades. Experimenta, vai à janela e imagina o teu corpo rebentado no chão, o rasto de sangue a aquecer as pedras do caminho que não fizeste, os corvos a arrancarem-te os olhos que desviaste, o teu corpo surdo ao grito dos desconhecidos que ali estão. Sentes terror? Sentes compaixão? Agora olha o céu. Sentes-te vivo? Sentes gratidão? Isso é poesia. Prosa é a vida, a poesia não!

 

O sujeito lírico caiu numa encruzilhada da madrugada, foi visto repetitivamente a saltar de janelas sedutoras, só para provocar a própria comoção. Levantava-se figura de estilo com Ironia dizia: - A prosa é vida, a poesia não. Se uns procuram a meia laranja, eu procuro o meu meio limão.  

 

Imagem: Saturno devorando a un hijo - Francisco de Goya

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por Diana V. às 02:12


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