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Ribatejo

por Diana V., Terça-feira, 20.05.14

Disseste…

Que as pedras da Praça 5 de Outubro eram corpo celeste

Que brilhava mais quando respirávamos sorrisos

E caminhávamos de almas levantadas pelos ventos da noite

Arrojados pelas ruas de sentidos que nos espreitavam em cada esquina

Ali … onde havia dias feitos de letras tecidos por uma Penélope expectante

Desfeitos nos murmúrios da noite na esperança de um regresso

(Um novo livro, talvez…?)

Chegava equilibrada na linha de ferro que nos unia nas distâncias

Vinha com a elegância da capital espalhada pelo corpo

Ali … largava a um canto reminiscências de uma outra vida

Despida pelos sons que me percorriam a medula

(Já não era outra, era eu…)

Embriagada pelos risos fluidos numa pista de dança

Onde partilhávamos garrafas de alegria e palavras ao ouvido

Tu disseste…

Que os regressos se teciam na memória de quem não esquece

Que outras noites desceriam continuamente o Almonda

E girariam como o destino na tarambola à margem da pedra

Onde pousámos os copos vazios

horas antes erguidos

Às memórias dos sonhos por vir

Amanhecíamos nas ausências prolongadas que preenchemos 

Com alguns minutos de olhares em silêncio

E fotografias guardadas no disco rígido das máquinas

Interrompíamos a ordem com gargalhadas

Que fariam desta ... todas as outras madrugadas!

 

DV

 

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por Diana V. às 03:02

A Literatura e o Mal - Georges Bataille

por Diana V., Segunda-feira, 05.05.14

Um elogio à desordem e à transgressão, que não é apenas estar à margem do que é útil, é ser a margem entre o sentido comum e as ambivalências sensoriais que encontram um espaço obscuro e privilegiado na literatura, esse ponto de ruptura que a torna inútil e livre do tempo comum onde a vida se esgota na construção da possibilidade, e que a remete para uma outra dimensão temporal, numa viagem extraordinária e infantil que não tem qualquer destino.

Como nos diz Godard «Cultura é a regra, arte é a excepção»[1]. A excepção é esta singular pluralidade de existência maldita e soberana que desloca, reinventa e liberta das pesadas estruturas sociais e dos inerentes condicionalismos da condição humana. Só o diabo pode ser livre do movimento castrador da mão de deus.

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por Diana V. às 00:15

Voar

por Diana V., Sábado, 03.05.14

 

Não quero acreditar em utopias, quero ter ideais, quero saber como se cria essas coisas sem nome que nos desagregam a alma, lá onde ela está agregada, apegada, colada, agarrada às coisas de sempre, que não fazem sentido, nem fazem nada, que não são estrada, nem são escada, e que nos prendem como se fossemos quadros de pó nas costas de uma parede.Quero ter ideais e ser pó, sem quadro fixado, pregado, agregado, quero voar desapegada das coisas. Quero ser o homem que viajou de mota para outros sentidos sítios e, quando voltou já não era ele e a terra onde nasceu já não era sua, não porque não estivesse no lugar, todas as terras são quadros, mas ele já era pó. E voou até outra terra onde vo(lt)ou a ser homem.Quando crescemos há lugares que ficam mais pequenos, e então vamos para sítios maiores que nos engolem ou nos agigantam.

 Dizem que procurou as minas do rei Salomão em África, até ter posto os olhos no céu. Depois mataram-no e cortaram-lhe as mãos, porque é com as mãos que os homens fazem coisas, mas aquelas mãos sem homem já não faziam nada. Sepultaram-no e ele foi pó. E voou, voou, voou. Os ideais continuaram a respirar noutras vozes, porque os ideais não precisam de mãos para fazer coisas, precisam de Homens. Voou e foi céu vermelho (todos os Homens olharam para cima). Quero ter ideais, desses que nunca morrem e que fazem homens céu. Quero voar desta sensatez muda, que escuta e observa, que nada agita. Não há manifestações pacíficas. 

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por Diana V. às 00:05

Cinco cartas de Amor e uma de despedida I

por Diana V., Sexta-feira, 02.05.14

     Deixa-me partilhar do teu silêncio e aconchegar os teus gritos no calor dos meus lábios. Deixa-me amanhecer-te, entardecer-te e anoitecer-te numa página em branco, onde dançam os deuses e demónios dos livros que lemos naquela tarde de verão que permanece intacta no cheiro dos nossos corpos ausentes. Deixa-me amor ser o teu campo de batalha onde procuras a paz da infância sensorial e vívida, onde colhias papoilas rubras e malmequeres em cenários oníricos, e com elas desenhavas sonhos que havias de contar-me mais tarde. Era sempre tarde para o encontro do desejo que as ausências engrandeciam, e tu esperavas-me entre cigarros breves e minutos demasiado demorados, a olhar o curso contínuo do rio onde haveríamos de beber madrugadas e auroras por vir. Falavas-me das palavras que te tinham escolhido, para te dizeres à minha chegada, e de como a linguagem era imperfeita e ineficaz para te definires enquanto me esperavas, e eu pedia-te que me lesses uma passagem do livro que trouxeste para enganar os minutos onde eu não estava. E tu lias, e eu ouvia, falavas sempre de liberdade e dos homens feitos de céu que a procuravam, eu ouvia e voava entre as margens onde tínhamos ancorado os medos de uma história por contar.

     Todas as palavras eram equívocos que deitávamos à água, náufragas dos sentidos que lhes dávamos, desciam o rio ajudadas pelo vento como os pequenos barcos de papel da minha infância que os meus dedos pequeninos dobraram antes de te conhecerem, antes de existirem para te tocar, antes de existirem para os teus lábios os tocarem. Beijavas-me as mãos, e os teus lábios eram terras quentes de perfumadas flores exóticas que eu guardava entre as páginas do meu diário. Enganávamos Saturno e a ordem natural das coisas, num silêncio desordenado que soprava continuamente e nos emaranhava os cabelos, e éramos solene fogo ardente onde nos consumíamos até sermos a brasa com que acendíamos cigarros de despedidas fumadas entre beijos e movimentos das nossas mãos eloquentes que nos diziam tudo o que precisávamos saber sobre o poder da oratória silenciosa de quem numa tarde de verão se fez poesia de asas longas, que se abriam ao horizonte dos olhares que trocávamos. A fortuna girava determinada em mudar-nos a corrente, nós girávamos com ela sem resistir e ignorávamos o destino que nos pudesse trazer, por existirmos além matéria, além-mundo, onde nem deuses nem demónios nos podem alcançar. Riamos das preocupações da vida, como num jogo infantil, espontâneo momento sem finalidade, como a viagem inacabada de paisagens que desenhaste nas minhas costas viradas ao calor do teu corpo, onde me atracavas e desancoravas à liberdade das marés revolucionárias onde eu me fiz manifestação e tempestade. 

 

 

P.S. Para a mãe que eu sei ter muitas saudades das coisas que a Maria das Quimeras escrevia. Anda uma mãe a alimentar uma filha a poesias e utopias, para depois ela só escrever disparates que ninguém entende, e que germinaram de leituras tão arrebatadoras que levaram todos os meus demónios a um suicídio colectivo. 

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por Diana V. às 15:28

Do outro lado do espelho...

por Diana V., Sexta-feira, 02.05.14

 

 

A vida repete-se, vai como de costume, com a habitualidade dos bons dias com cheiro a pão quente. Dobro esquinas idênticas, simetrias habituais, calcorreio as calçadas todas elas sempre iguais. Afirmo solenemente, na prosa nunca há rima. Ri … mas logo de seguida fiquei nostálgica, cheia de saudades portuguesas das minhas constantes incertezas. Na prosa nunca há tristezas, nem liras, nem corvos nem violinos. Vai tudo em linha recta, sem linha torcida, é ponto final, cruz, linear, sem reticências. É um conjunto de coerências, uma espécie de bordar, a agulha entra por um lado, sai por outro, ponto arrematado, pela frente bonitinho, atrás tudo enleado, como a vida. A prosa é a vida, a poesia é a linha cortada. Interrompida. Tenta lá dizer bom dia com poesia, é tudo diferente, sem cheiro a pão quente, ou a coisas habituais. Cheira a cinzas de amores passados, crimes premeditados, pássaros fúnebres esborrachados no vidro do carro em andamento. É tudo sofrimento, mesmo quando não é, é sempre um fingimento superior, toda a acção se crava como lâminas aguçadas no peito do sujeito. Eu Lírica. Morte, renascimento, latejar poético das artérias mirradas, bate leve, levemente, formigueiro, pé dormente, sempre incomodativo como a dor de um dente. Li que a prosa não deve rimar, e só para contrariar… nasci - Do contra, contramão, contratempo, contraversão, contraste, contra senso.

Alice buraco dentro, agora pequena, agora grande, propensa a quedas, inconstantemente flexível. Está tudo do outro lado do espelho, fecho os olhos para ver. Se for uma porta é prosa, se for uma janela é suicídio, poesia em movimento, das portas não caem corpos, ninguém se atira de uma porta, ninguém se comove com uma porta, não têm terror, nem tragédias. Ou têm? Pintaram as portas em tons de suicídio, dentro delas germinam janelas, vertigens poéticas com cantos de sereias que entoam abismos a deuses hiperbólicos que devoram eufemismos. A queda é sempre inevitável às fatais possibilidades. Experimenta, vai à janela e imagina o teu corpo rebentado no chão, o rasto de sangue a aquecer as pedras do caminho que não fizeste, os corvos a arrancarem-te os olhos que desviaste, o teu corpo surdo ao grito dos desconhecidos que ali estão. Sentes terror? Sentes compaixão? Agora olha o céu. Sentes-te vivo? Sentes gratidão? Isso é poesia. Prosa é a vida, a poesia não!

 

O sujeito lírico caiu numa encruzilhada da madrugada, foi visto repetitivamente a saltar de janelas sedutoras, só para provocar a própria comoção. Levantava-se figura de estilo com Ironia dizia: - A prosa é vida, a poesia não. Se uns procuram a meia laranja, eu procuro o meu meio limão.  

 

Imagem: Saturno devorando a un hijo - Francisco de Goya

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por Diana V. às 02:12


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